Amor de brinquedo
Chega com ar de quem quer brincar.
Com estranha seriedade,
manipula meu humor.
Me leva a lugares
de onde não sei voltar.
Quando se despede, fico,
já não sei quem sou.
Arco-íris
Uma garoa fina atravessou a tarde
sem pressa
Lágrimas de um céu ruço se fundiam
co’as dos meus olhos
Água e óleo diesel se excluíam
no asfalto negro-azulado
Os sapatos molhados
pisavam arcos-íris
Abriu-se a porta e sentei
protegida pelo teto
Chegaste
Tua roupa úmida me adormeceu
as narinas
Ansiosos, meus lábios
encontraram os teus
molhados de vinho
Abrigados por parreirais de sonhos
nos amamos
Com a mesma avidez
que nossos sentidos se interpenetraram
ainda te procuro
nas manhãs que irrompem
nos meus lençóis sem cheiro de amor
Caçadora
Teu olhar,
tesão e mel,
lagoa parada,
onde me banho em afagos.
Sou criança,
caçadora,
faço carícias,
armadilhas.
Nosso dia é da caça...
e do caçador
Cheiros do pôr-do-sol
Curtida de sóis e ventos
A pele recende ao cheiro
Do sabonete de orquídea
Que dançou no corpo inteiro
Do pátio, sebo e borralho
Erva-doce, da cozinha
Pedaços que a tarde deixa
Quando triste vai sozinha
São cheiros que se misturam
Perfume, suor e pelego
A tarde foge corada
Corpos buscam aconchego
O querosene e a cachaça
Invadem casa e galpão
Um vai molhar o pavio
A outra acender o peão
Fragor
Varada pelo sol,
a casa estala, olhos abertos.
Um pé de vento sacode o telhado.
Tranquem portas e janelas, ela grita.
O rio encrespado reflete lampejos
mandados pelo céu.
Estão todos seguros?
Geme e range os dentes.
Vem da Argentina?
Do Uruguai?
Talvez das cordilheiras.
Urge agora
a fuga para baixo das cobertas,
a reza pelos pássaros em revoada,
pela compaixão do vento,
ventando, varrendo as vias no vazio da noite
Infância de geada
Manhã de infância gelada
Onde a brancura do frio
Anda brincando de geada
Os dedos fogem pro bolso
Que vai ligeiro envolvendo
A mão todinha enluvada
Dentro de montes de roupa
Fervilha a locomotiva
De uma criança guardada
E o vagão das aventuras
Durante o curso do dia
Pelo buraco da boca
Vem largar sua baforada
Hoje a mão foge pro bolso
Tentando achar a criança
Que o tempo, um dia escondeu
Na manhã de infância, longe
Onde a brancura do frio
Anda brincando de geada
O vagão se desprendeu
Manhã
Corpos entrelaçados
quentes de amor e sono
Arde a língua de um
no céu da boca de outro
Arde o sol no céu
cozinhando em fogo brando
a hora da separação
Nem em sonho
Tudo é azul no quarto azul
O cheiro, é de guardados
Na manhã de geada,
a vista branca
De tarde, uma ovelha negra
é o sinuelo do alvo rebanho
De noite, a boca escura do silêncio
engole o quarto azul
Medo de lobisomem... boitatá
Ai, minha Santa Ana,
tomara que o dia amanheça
Para não pensar em assombração,
chamo coisas boas
(Depois de uma noite inteira
os terneiros reencontram as tambeiras)
Abro a janela e busco minhas assombrações
Elas não estão mais aqui e eu me desencanto
Nove luas
Exalava um cheiro de pelego e arreios
As pernas arqueadas desmontaram sôfregas
dentro dos panos fartos
Os olhos ariscos cortaram como lanças
o caminho até as casas
A tarde deu um longo suspiro
e apagou o sol
Acenderam o lampião as mãos em brasa
Murcharam os panos e cobriram o chão
Desencilhado, galopou a madrugada
A lua explodiu e prateou o potreiro
com nove luas novas
Alfinetes
Juntou retalhos e crina,
em meio à estripulia das crianças.
Riscou o feltro vermelho,
diante do sorriso malicioso
de adolescentes sonhadoras.
Recortou e costurou na máquina de pedais
e depois recheou,
o coração, da forma mais perfeita,
para nele cravar seus alfinetes.
Redemoinho
O tempo cresceu depressa.
O eco devolve perguntas:
Onde anda o peão caseiro,
amigo da gurizada,
ainda sai a camperear,
ou anda pelos galpões,
sem trocado nem papel?
Ou será que foi embora,
no lombo de um redemoinho,
a encilhar fletes de luz
pra gurizada do céu?
Sapo cururu
Pai e mãe cantaram
Sapo cururu na beira do rio
O bebê não dormiu
Bebeu poesia com as estrelas
Sorte da bananeira
Por uma letra ela espera
“só uma letra, meu São João”
pede ao Santo, tira a sorte
neste junho de ilusão
Seu peito virou fogueira
que noite adentro arderá
o coração é um guri
sobre o braseiro a pular
Cravada na bananeira
vai a faca desenhar
a inicial que é sinuelo
de um sonho a desabrochar
pula, que pula, guri
inda há muito que pular
a noite mais longa e fria
debocha dessa guria
que também arde a esperar
Tarde
O mormaço derrete a tarde pachorrenta
contra o velho relógio de parede
O tique-taque é trote seco
sobre o capim queimado
Longos suspiros libertam léguas de ansiedade
As camas foram feitas e refeitas
A casa reflete o zelo ansioso
de quem desabrocha em alvos campos de cambraia
ao canto do primeiro galo
Há muito o quê esperar pelas mãos firmes
que percorrem os caminhos de seu corpo
Tramando fios de lembranças
(Valsa gaúcha)
Manhã de infância povoada,
de sonhos que dançam no pampa
onde a brancura do frio
anda brincando de geada
Os dedos se escondem nas luvas
que vão, ligeiro envolvendo
a mão que traçou caminhos
para enfrentar a jornada
Debaixo de tanta roupa
que abriga um corpo de adulto
fervilha a locomotiva
de uma criança guardada
E o vagão de aventuras,
durante o curso do dia,
pelo buraco da boca
vem largando baforadas.
E o vagão de aventuras,
durante o curso do dia,
pelo buraco da boca
vem largando baforadas.
Hoje, a mão foge pro bolso
tateia os fios de lembranças
buscando tecer a querência
que um dia o minuano varreu
Na manhã de infância distante
de trilhos cobertos de geada
numa curva do caminho
o vagão se desprendeu
Vem cuidar desta guria
(Acalanto)
Ando sozinha no mundo
Sozinho também andas tu
Por que gurizinho não vens
Pra espantar o bicho tutu?
Nas lidas com o gado de osso
Tu és o mais guapo peão
Sonho que um dia
Serás rei no nosso chão
Quando a galope tu passas
Num redomão de taquara
Fico de longe cuidando
E meu coração dispara
A minha bruxa de pano
É tua também, de brinquedo,
Vem cuidar desta guria
Que do escuro tem medo
A tua funda malvada
Meus sonhos não quebrará
Vem, gurizinho campeiro
Que contigo irei brincar
Vendedor de doces
Sentado num portal alheio
engole, humilhado, a parca refeição
Á sua frente,
o brilho de uma farta bandeja
Sabe tão amarga
a vida
de quem vende doces
Verão
Os cinamomos estavam imóveis.
A praça, um filme antigo
sobre uma tela ondulada.
Ao se locomover lento,
o automóvel tragava uma faixa de asfalto.
Muito tempo transcorrido
desde a noite em que tomara um ônibus,
sob aquele vento morno,
deixando para trás a rotina
que por vinte anos estendeu os dias
inchados de cantos de pássaros
à beira do rio Uruguai.
Chinária
Caminhar pelo arrabalde,
que coisa de cinema.
Bater palmas ao portão,
me fazendo de íntima ...
Me faz uma gauchada?
Pergunto rindo, despachada.
Abro a boca pedinchona:
Esse jujo, senhora,
serve pra quê?
Ganho um chá de quebra-pedras
pras pedras que nunca tive.
Ela proseia e eu me animo
a contar as minhas ânsias.
Me passa um manojo de alecrim,
pra alegrar meu coração.
Bocas paspadas
Bocas paspadas
atiram palavras
em roda do fogo:
O rio subiu tanto,
decretaram calamidade pública,
o crime aumentou.
Que barbaridade:
homens de bem, desarmados.
Me passa um dos teus,
faz horas que não pito.
Esta cidade está numa naba!
“Qualquer dia pego mias meninas
e me toco pra Argentina”.
Aquela que chupa mate,
arranca gargalhadas,
e completa:
essa é do finado Ivo.
E esse inverno que não termina?
De manhã a gente remancha, remancha
e acaba ficando em casa.
No verão me arranjo uma changa.
Só a boca se movimenta naquele corpo de índia:
Quando acabar a entressafra, bah,
não vou ter tempo pra nada.
Amagada
Praça do Barão, em fila indiana:
bonita, feia, bonita, feia...
contava a guria, dona da brincadeira.
Ai que amor, gritava,
à vez da bonitinha.
Fizeram um trato:
pra bonita, o príncipe,
pra feia, o sapo.
A guria que era um amor,
cresceu,
veio o sapo cururu
da beira do rio.
A feia diz que se arrumou
na Argentina,
tem isso e aquilo,
manda e não pede.
Assim não vale
a bonita, agora é recalcada,
a feia, anda toda alçada.
Recalcada
“Sou fã da Martina Mendes”
No Orkut, as gurias entram aos gritos,
na comunidade da escritora.
Menos eu,
mostro a teia de lugares comuns
em que elas caem.
Olhares debochados envenenam meu corpo,
afinal, não ganho nada com o que escrevo.
Lá vem ela,
rosto e corpo da Gisele Bündchen.
Eu mostro detalhes críticos da moça em questão,
mulheres inventam bonitas que não oferecem perigo.
Me lançam substantivos mais azedos que limão galego:
Olha a inveja, olha o recalque.
Às vezes me achico,
a outra não incomoda ninguém
e eu a pelear pela prevalência da Verdade.
E os auto-proclamados intelectuais?
Me falta paciência.
Recebem aulas deles, todos dizem.
Não gosto de aula enquanto bebo meu vinho,
da minha formação cuido eu.
Copam comigo:
Coisa de pessoa que não sabe o nome dos tataravós,
metida à intelectual e comuna.
E os bens de raiz? Os incomunicáveis?
Estão seguros faz muitas gerações, contam, muito prosas,
retorcendo os lábios como a saborear figos com casca.
Já meu latifúndio é virtual,
gera resmas e pilas que pagam a conta
das minhas andanças por esse mundão de Deus.
Para esses, cidadãos de bem erguem brindes e recitam versos:
“Salud pesetas, y ganas para gastarlas”.
Minuano
Ventam palavras geladas,
em roda do fogo.
O uivo do cusco explode,
no bico da bota embarrada.
A canha incendeia uma sentença:
o tempo vai limpar.
Correspondência
O vazio da caixa de correspondência
é boca que sorri superior, da mulher só.
Condenada,
a mão penetra o frio espaço horizontal.
Hoje, nem credores a chamam,
os bancos não mandam o extrato,
a conta da luz ainda não chegou...
A boca, de sorriso impessoal,
mais uma vez, triunfou.
Penas
Um pescoço de violão
surge alto das flexilhas
Ave arisca e misteriosa
tem pedestal de coxilha
É vista a espanar o pampa
quando dispara, assustada,
correndo alto do chão
e de penas enfeitada
Também a sorte dispara,
de penas, por vezes se cobre,
a quem achar ovo guacho,
um dia talvez ela sobre.
Esconderijo
O vento passou brincando no pátio
O menino quis se esconder no bolso da mãe
Queria crer, como o menino
Que frente a um vento norte
Encontraria o calor de um bolso.
Chisme
Voltou pelo guarda-chuva, disse.
Demorei no encalço.
Esbravejei, cuidasse de suas coisas,
não tinha que guardar os mijados dele.
Apanhou o que buscava,
tinha mais o quê fazer.
A porta se fechou,
ouvi os passos se afastando.
Ninguém me deixava assim no mais.
Fosse embora, mas pra sempre.
Até que enfim ia me livrar daquele derrotado.
Segui os passos na mesma velocidade,
gritando os piores palavrões que conhecia.
Ele se voltou e eu o peguei pelos cabelos,
gemeu de dor e se assustou.
Me abracei dizendo palavrões menos cabeludos.
Era a última vez que agüentava um chisme daqueles, ameaçou.
Sorro
Ocos de árvores,
salamancas,
ele transforma em casa.
Prata, ouro, fivelas, argolas de laço,
luzem no pasto,
Atraem seu ávido olhar noturno.
Pequeno cachorro selvagem
recolhe fulgores
e guarda o tesouro,
formado de perdas.
Mazá
No café central
chega cedo
pescou notícias frescas no caminho
Orelhas cabeludas se rendem
achegadas ao bafo do cozimento em tempero forte
Agora são histórias que se desdobram
pedem para serem contadas nos quatro cantos
Véspera
Véspera sabe a peru assado e passas,
à espera dos presentes,
enrolados em papéis multicores;
à alegria de vir a ser feliz.
Ano que vem quero vigília,
desde a antevéspera,
alongando a leveza de ser
e de estar no exato lugar
onde haverá celebração.
Véspera II
Setembro prepara a primavera:
os jacarandás floridos, acabou o inverno.
Em nossa terra não há jacarandás,
alguém esclarece.
Os jacarandás do exílio floresciam
e canções eram compostas,
épicos de mim para comigo.
Saudades da minha terra,
que nunca foi tão linda,
como vista de rincão afastado.
Brinco com as palavras
que te entregarei em versos,
na celebração do encontro.
Manto
Rego plantas no quintal,
faço bolinhos de chuva,
quando não chove.
Faço chover se estou mal.
Maldigo os homens, acendo velas,
peço socorro pra qualquer um.
Fico tão leve que me espanto.
Então quero ficar só e singela,
bajulo os santos do altar,
a virgem me cobre com seu manto.
Amor
O amor há de chegar um dia.
Que seja num doce dia
de sol e festa.
Que seja amor generoso
de homem e mulher,
não de deuses de beleza.
Que seja de carícias
de mãos grossas,
de peles suadas no calor.
No frio, com roupas abrigadas.
Deve acordar as manhãs
e ninar as noites,
saciar a fome
sentado à mesa.
Três noites que não durmo
Meu filho voltou da escola, cantando:
“Faz três noites que eu não durmo, lalá
pois perdi o meu galinho, lalá”...
Achei a coisa mais triste o meu menino perder um bichinho de estimação.
Até eu que já o vi crescer e partir com barba cerrada
tenho um galo anacrônico num quintal do centro da cidade,
que faz fundos com a janela do meu apartamento.
Faz três noites que eu não durmo,
quero trazer meu menino,
num dia abençoado,
pra que ele descubra
o quê a música cantava.
Só de maldade
O violão encostado ao sofá,
o quarto da mãe, proibido.
Risadas bonitas e melodias cantaroladas.
A mãe alegre, a mãe carinhosa de manhã.
Eu com ciúmes do sorriso dela.
Os papéis e os livros sumidos
nas gavetas e estantes.
A mãe ouvindo as fitas co’aquela voz
que cantarolava no quarto com ela.
Eu, na cama da mãe.
Meu quarto ocupado, cochichos,
gente escondida, comida em bandeja.
A mãe no telefone: caiu? entregou?
Uruguai? Argentina? Chile?
A mão dela puxando a minha pro supermercado:
jornal, cigarro, creme de barbear.
A vó na porta da escola,
eu saltando, correndo pra casa dela.
Aniversários dos meus primos,
montão de amigos com mães de unhas pintadas,
bocas vermelhas cantando parabéns,
perfume, merengue de bolo, uísque
nos copos dos pais dos outros.
“Quem viver saberá que é possível,
quem lutar ganhará seu quinhão”.
O violão devolvido à sala,
eu, com fome de torrão,
daquele comprado na estrada da praia.
Quinhão, a palavra mais feia do mundo,
torrão, a mais doce.
Travesseiro na cabeça, buscando sonho
com casa bonita, festa, batom, perfume, uísque de pai.
O telefone de madrugada,
ela me puxando da cama quente.
Nós duas indo pruma casa no campo,
um barbudo sério dando carona.
Amanhã não tem aula, coisa boa,
fico dia todo olhando o fogo,
papéis queimando,
formando figuras de diabos
de barbas compridas...
Ela me deixa nas casas dos aniversários
(não me importam mais os batons e os parabéns).
Ela tinha que trabalhar pra ganhar dinheiro,
num lugar onde falavam outra língua,
eu não podia estudar lá.
Os galos cantavam horas durante a noite,
os cachorros latiam, longe...
(onde a mãe estava?)
Eu ia pra escola e fazia tudo o que mandavam,
pro tempo passar mais depressa.
Quando ela voltou, só de maldade,
eu achava ela feia,
amiga de gente feia,
dona de uma casa feia.
Fura bolo
Misturei um bolo com receitas antigas.
Assei-o em forma grande,
nele coloquei infinitas velas.
Cantei um trêmulo parabéns para mim.
O dedo mais guloso furou todas as fatias,
evoquei sabores quase esquecidos.
Sei que intuis que minha alma não é pequena,
e quase doce
se oferece pra ti
Lovers
I wonder if we got the key
to start wandering
you and me
as the crew
hanging from a blue balloon
towards the moon
No need to be a tycoon
to have the world
got down on its knees
under two loving beings
staring far so high
for it to see
Amantes
Queria uma chave / que nos pusesse a vagar / tu e eu / tripulando um balão azul / em direção à lua / Não precisa ser um magnata / pra fazer o mundo se ajoelhar / olhando lá no alto / os dois seres amorosos.
O Pesadelo da sereia
O encantamento do cavalo-marinho
como a girar num carrossel
mostra o sexo
que a metade do corpo da sereia
da cintura aos pés
pode ter dele.
A outra metade
acorda as criaturas marinhas
cantando lúgubres melodias.
Nem um sereio ou um mortal
lamenta a cativa
ao fundo do mar
A única esperança
é o pincel do artista
plasmando seu corpo inteiro
na ilha dos sonhos.
Ninho
Minha avó me deu uns trocados:
Vai comprar caramelos pra nós no armazém Vesúvio
Estou voltando agora
encontro um ninho de joão-de-barro sobre o aljibe
A casa da Rua Duque
não existe mais
Ninho II
Se vangloriava de nunca ter cogitado do suicídio
Não a obrigassem a dizer
que pensava em acabar com a própria vida
A enfermeira fechou a porta do quarto
Ela examinou as paredes
Somente uma janela,
com grades...
para alívio dela.
Procurou um templo religioso
lá suas visões eram normais
lá era necessária
para as pessoas em desespero
rolarem suas pedras montanha acima
Não suportou ser parte de uma engrenagem
Fugiu
Na fuga pegou o caminho de volta
para o lar da infância
Um ninho de joão-de-barro sobre o aljibe
a casa não existia mais.
Encanto
O galo explodiu em canto
aos ouvidos do poeta
lá onde ele vive à beira do mar
Me acordou nas margens do Uruguai
o meu quintal, raiado de vinho
A colheita iniciara?
Nei Duclós abriu a janela
e lançou seu longo olhar
até as videiras de Uruguaiana
Véus
Velada
se revela
se reparte
levita
e parte
levando a melhor parte
com ela
Levitação
Sobe aos céus
mulher dividida
Se cobre com véus
na despedida
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