Coro Final da Paixão segundo São Mateus
 

A garganta ardia. Palpou o pescoço: mais um gânglio, o segundo. Nas axilas, nada. Nem em outros lugares. As fezes normais. Uma febrícola à tardinha. Não poderia se tratar por muito tempo com a médica particular e não possuía nenhum convênio. E quando o problema se agravasse? Afastou o pensamento com uma oração ao anjo Rafael. Não se arrastaria em filas de hospitais públicos. Seu estado geral era bom, as experiências científicas avançavam, em breve a cura seria encontrada. Uma visão de um colorido intenso: o Mestre, ou Deus, ou sabe-se lá quem guiando um grupo de homens esquálidos por ruas estreitas, o caminho de pedras levava até um lugar amplo. Olhando de outro ângulo, o ancião de barbas brancas, cajado e túnica se transformava em uma enorme mão, verde como a túnica e o musgo da parede. A mão girava mostrando dois pequenos homens nus. Esse ângulo causava mal-estar, lembrava um sentimento de culpa que ele desconhecia, mas o outro ângulo, tinha certeza, era o da salvação, da saúde, intuição era o seu dom maior. Como uma parede mofada, de um edifício vizinho, podia revelar tantas imagens resplandecentes?

Na parede do quarto, Marilyn começa a se movimentar. Acaricia a coxa, retira a mão direita do braço esquerdo e deixa cair a outra alça do vestido. A língua se movimenta na boca vermelho rubi. Marilyn a cores tenta dizer que a vida vale a pena, é um tédio estar dependurada em paredes de pessoas solitárias.

Ele caminha até Marilyn e a coloca no roupeiro. Batem à porta e ele procura a garrafa com o precioso líquido dourado que veio da Amazônia exclusivamente para ele. Hoje não quer dividi-lo com ninguém. A campainha começa a tocar música, se transforma num canto gregoriano, pelo olho mágico, um coro de monges. Amplas tonsuras emitindo vibrações contam toda a vida de Carlos Eduardo Camargo: o nascimento num bairro pobre à beira do rio Uruguai, a mãe indiática lavando roupas o dia inteiro, o grupo escolar de onde se via o outro lado da ponte, os pastéis cobertos com canela que ele vendia na rodoviária, o guaraná aos domingos, a água batendo nas pedras, o medo da enchente, a mudança para a escola maior, os risos dos sapatos, das roupas dos cadernos dele.

Os monges sabiam de tudo, ele tentou abrir a porta, não conseguiu, talvez não fosse necessário, a comunicação era perfeita. Ele atravessando a ponte com a mãe, os dois carregados de sabonetes, queijos, galletitas, dulce de leche, acomodados dentro das roupas, colando na pele. A revista na aduana, o alívio. Os carros dos estancieiros brilhando contra o sol, espalhando música no ar, como no cinema.

O irmão da mãe foi visitá-los numa farda de sargento. Depois do almoço, deitou para descansar. Olhou para as crianças em volta:

“Carlito, me alcança o meu cigarro”. Foi ele que o tio escolheu para pedir favores, levantou do banco cheio de orgulho. No rádio do tio tocava Coro Final da Paixão Segundo São Mateus, anos depois descobriu o nome e a autoria de Sebastian Bach, o peito se encheu de uma espécie de vento e luz insuportável, ele saiu porta afora e correu, correu, até a praça Barão do Rio Branco. Ele ia sempre morar à beira daquele rio que ficava desesperadoramente calmo ao entardecer? Os reflexos da ponte, do sol se pondo, quero-queros aos bandos e, mais tarde, só os latidos dos cachorros. Um estancieiro que se chamava Carlos, casado com uma senhora que mandava lavar roupas na casa da mãe do Carlito veio em direção a ele: bombachas e camisa bege, alpargatas brancas usadas como chinelos, desceu da camioneta. “Carlito, onde é que tu vais, rapaz? O que foi que te fizeram?” E ele nunca tinha visto um homem tão bonito e tão rico, os dentes tão brancos e o convidou para tomar guaraná geladinho e bebia cerveja e cada vez ria mais e ficava mais amigo, então o colocou no colo e disse que ele era muito sensível e o deixou brincar com a direção da camioneta e Carlito também gostava e queria.


Antes pensava que nunca voltaria para aquela cidade, hoje tinha vontade de revê-la. Ele era belo como o Banderas, os monges se retiraram numa fila marrom que foi descolorindo como fotografia ao longo dos anos e se transformou numa pomba branca que se perdeu no céu azul turquesa.


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